Postado 06 de março de 2018

Escola na Jamaica: Um dia de surpresas com as crianças locais

Cultura, respeito, união. Vivenciamos isso em uma Escola na Jamaica. E esses são os principais motivos da nossa escolha por viajar devagar, desse estilo de vida “slow travel”. Não precisaríamos mudar de carreira e enfrentar os desafios de uma vida de mudanças com um bebê (cada dia mais menininho) pelo mundo se nosso interesse terminasse nos lugares mais famosos: já turistávamos bastante nas férias.

Mas meu espírito viajante não se satisfazia, precisava conhecer, conversar, entender. Desejava praticar línguas, aprendendo sobre empatia. E a ideia de viver viajando tomou conta dos nossos sonhos, e depois da nossa realidade. Nesse nosso estilo favorito de viagem, misturamos os pontos turísticos que todos amam com o estilo de vida dos locais.

Assim que planejamos nossa viagem de 1 mês no país, sabia que tentaria levar Vicente à Escola na Jamaica. Queria dar a ele a vivência de estar no dia-a-dia dessa outra cultura, para aprender e se divertir com as crianças de um local tão parecido e ao mesmo tempo tão diferente do nosso.

Sabia que dali eu também levaria muito aprendizado. Mas não imaginava que eu, Vicente ou nossos novos amigos nos surpreenderíamos tanto, por diferentes motivos.

Foi preciso insistir para que a Diretora da escola autorizasse a nossa visita – com o pedido feito pela Nadine, a jamaicana de confiança do dono da casa em que nos hospedamos, que nos ajudou em tudo lá. Eu queria levar Vicente algumas vezes na semana, por algumas horinhas, para ter um contato maior com as mesmas crianças. Mas a Diretora marcou o dia: deveria ser no dia da apresentação.

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Eu esperava a escola cheia, os pais felizes e cheios de expectativas, as crianças fantasiadas fazendo coreografias treinadas no auditório. Era o que significava dia de apresentação na escola na minha infância. Começam aí as surpresas: não tinha música nem fantasia.

O auditório da Escola na Jamaica estava lotado, apenas com crianças e professoras. A Diretora falava ao microfone, à frente, eloquente e contagiante, chamando cada turma à frente, que iniciava uma espécie de torcida para os anúncios dos resultados que ela daria. “Um dia especial na escola, todos eufóricos, mas não é festa?” – Me questionava a todo instante, esperando que uma hora as tais “apresentações” começassem.

Assim que nos sentamos, as crianças em volta se aproximaram com sorrisos tão grandes e olhares tão encantados, que era impossível não sorrir junto. Vendo que fomos receptivos, elas começaram a nos tocar: tocaram na nossa pele, e, principalmente, no nosso cabelo. Perguntaram se era real (lá elas usam muito aplique de tranças) e se era natural. E continuavam passando a mão, principalmente, no cabelo do Vicente.

Ele deixou e também tocou de volta, achando ser uma forma carinhosa de amizade. Depois, as outras crianças próximas viram a situação e se aproximaram para fazer o mesmo. Até que, com meia dúzia de crianças passando as mãos no seu cabelo, e mais vindo, ele se assustou e começou a chorar.

Era difícil para ele entender o motivo de ser o centro de tanta atenção! Então “grudou” nas minhas pernas e ali ficou por alguns minutos.

Ao ver a minha expressão (que deveria ter um enorme ponto de interrogação no olhar), a professora me explicou que a maioria das crianças da Escola na Jamaica ali nunca tinha visto um “homem branco” pessoalmente. A escola ficava há 20 minutos da cidade em que moramos por 25 dias, a turística Ocho Rios! Mas gente da nossa cor, para eles, era coisa de televisão. E por isso, nos trataram como príncipes chegando dos céus, com uma admiração que eu só imaginava que as pessoas teriam por ídolos ou “deuses”.

Não vi miséria, a escola parecia ter todo o necessário, mas os motivos que me assustaram lá foram ainda mais graves – estava no que era ensinado – e no que as crianças me falaram lá. “Eu queria ter a pele e o cabelo iguais aos seus” e outras frases no estilo foram ditas por alguns dos que se aproximavam.

“Mas você é lindo(a)! Seu cabelo é lindo! Sua pele é linda!” – a minha resposta também os surpreendia. Eles faziam uma expressão confusa, como se nunca tivessem ouvido isso. E continuavam: “Eu queria ser o seu irmão. Ou ser você. Eu queria ser assim.”

Estava arraigado ali um racismo das crianças com a própria cor. Tentei ensinar, quebrar essa ideia tão errada, e eles me ouviram – mas não sei até que ponto consegui mudar a cabeça de quem parece ouvir justamente o contrário por toda a vida. Dentro da Escola na Jamaica, inclusive.

Percebi que geramos uma dispersão em todas as crianças próximas das nossas cadeiras, olhei para as professoras, mas elas riam de tudo, não se importaram, então continuei no mesmo lugar.

E a apresentação? Era na verdade uma espécie de “olimpíada”: narrando em euforia, a Diretora revelava o valor do dinheiro doado por cada turma, e anunciava em tom de Oscar os “ganhadores”, que eram os alunos que tinham levado mais. O dinheiro seria usado para reformas na escola. À medida que ela ia revelando os valores, em meio à situação com as crianças, eu tentava fazer a conversão aproximada mentalmente para entender de quanto se tratava: algumas tinham levado 600, 800 reais.

O vencedor de cada turma ganharia um troféu de plástico entre as turmas dos mais velhos levaria dois ingressos para o Mystic Mountain, que é o parque imperdível para os turistas da cidade, com o teleférico com a vista mais linda do mar do Caribe, um brinquedo de aventura no estilo do filme “Jamaica Abaixo de Zero” e piscina com vista panorâmica. Um lugar onde aquelas crianças nunca tinham ido.

O dinheiro vinha todo de doações, que os pais pediam para todos que conhecessem. A filha da nossa amiga Nadine, com seus dois aninhos, foi a vencedora da sua sala, e tínhamos feito a doação que estava ao nosso alcance, quando ela tinha nos explicado da necessidade da escola. Essa, como a maioria das outras pré-escolas, era comunitária, mas exigia o valor de mensalidades muito caras para a renda local.

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As crianças gritavam, extasiadas, a cada anúncio como se estivéssemos na disputa de pênaltis de uma final de Copa do Mundo. A Diretora, no microfone, gritava celebrando junto.

Quando acabou a apresentação, e eu ainda esperava música e a dança, todas as crianças começaram a recolher as mesas e cadeiras e levar de volta para as salas, sem que fosse preciso que as professoras pedissem. Outra cena difícil de se imaginar no Brasil. Faziam isso sorrindo e se ajudando, com naturalidade.

Depois era hora livre: todos ficaram brincando e conversando na grande área, agora com poucas cadeiras. Ficamos mais uma hora ali, e Vicente nem se lembrava mais do susto inicial: rapidamente fez amizade e recebeu muitos abraços. Eu recebi baterias de perguntas: nome, de onde era, se o pai do Vicente morava ali, se voltaríamos todos os dias. E muitos pedidos para ir junto com a gente, que levei na brincadeira.

Mas as crianças brincavam com meu filho com tanta alegria, davam gargalhadas com caretas, brincadeiras, pique-pega. Quando chamei para a foto, se abraçaram e mostraram o quanto estavam felizes, todos queriam ficar ao lado dele e ele já parecia se sentir entre grandes amigos. Nesse momento, só tive pena de saber que dificilmente se veriam novamente, mas congelei o momento na minha memória e na foto.

Ao sairmos, pegamos carona, junto de outras pessoas, com a Diretora até o ponto de táxi. Eram sete pessoas no carro mais luxuoso que vi nos 30 dias no país.

Quanto saímos, perguntei para a nossa amiga que tipo de reforma ela tinha falado que faria, se construiria novas salas: “conserto das goteiras e pequenos reparos”. A chuva tinha sido torrencial naquela tarde, e eu não tinha visto nenhuma goteira – era um só teto muito alto para toda a escola, as paredes entre as salas de aula eram da altura de uma pessoa. Falei sobre isso, insisti na pergunta sobre uma boa obra. Não.

Expliquei que achava tudo muito estranho, apontei cada observação minha no dia, na Diretora. Nadine reagiu como se nunca tivesse pensado nessa possibilidade, disse que isso acontece em todas as Pré-Escolas. E, em 10 minutos de conversa, parece ter despertado, se revoltou com a possibilidade de ter algo errado e me garantiu que pediria para acompanhar de perto as despesas das doações da Escola na Jamaica.

O misto de alegria e tristeza me fez voltar para casa, em uma noite chuvosa, com um bebê sonolento e a certeza de que, naquele dia, o nosso programa nada turístico foi inesquecível para nós e para quem encontramos. Uma verdadeira experiência de vida. Tocamos corações de crianças, fiz a minha parte para ensinar que o negro é bonito, coloquei razão nas ações da nossa amiga jamaicana, que só repetia o que lhe ensinam, sem nunca questionar. Aprendi mais ali do que em todos os outros 29 dias na Jamaica sobre o seu povo inocente, alegre, batalhador, confiante e extremamente alegre e amoroso.

*Nós na época fizemos esta visita por conta própria, com a ajuda de Nadine. Porém, caso tenha interesse em também conhecer a cultura dos jamaicanos em uma escola, e ir além do turismo dos lugares paradisíacos, há uma opção muito interessante de visitação que agora é proposta para quem tem o desejo desta imersão. Você pode ver mais detalhes, e se desejar, reservar nesse link.

E claro, não deixe conhecer as belezas e os atrativos, que podem ser feitos na mesma viagem. Faça um passeio de barco à Negril Beach e suas areias brancas, divirta-se na Mystic Mountain (que já comentei antes), visite e faça compras na capital Kingston, descubra as incríveis Dunn’s River Falls… enfim, a Jamaica merece ser mais conhecida, em todos os seus sentidos!

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